Wednesday, November 16, 2011

A arte de jantar e dormir cheirando os mortos

A India me surpreende todos os dias. Cada refeicao, cada passeio, cada atividade eh um convite para aprofundar-me no conceito "whatever", amplamente disseminado para se viver bem por aqui. O choque de realidade - entre o que espero/conheco e o que recebo em troca - me deixa boquiaberta, frustrada, alegre, esperancosa que pior que isso, impossivel! Mas sempre pode piorar, claro.

Descolei a distancia um quarto de frente para o Ganges, Hotel Sonmoni (NUNCA MAIS!!!), por 950 rupias a diaria (uns R$ 35,00), padrao caro (para o que estava pagando). Era uma pocilga com mofo e vista para diversas piras funerarias.

Minha regra de viagem eh sempre estar hospedada antes do por do sol. Se necessario, praticar o desapego e, pela manha, arranjar moradia melhor. Foi duro manter-se fiel ao ensinamento. Os defuntos queimaram por toda a madrugada (funciona 24 horas, quem diria) e a fumaca de churrasco humano invadiu sem misericordia o meu quarto. Gente, voces nao sabem o que eh isso. Meu sistema respiratorio jah era.

Pela manha, escapei para a parte mais "isolada" da cidade. Com tanta gente na India, nunca eh possivel, no entanto, encontrar silencio de pessoas. Os momentos sao sempre repletos... de vacas, de lixo pelas ruas, de criancas pedindo "chappati", de "excuse-me madam, boat trip?".

Agora sou hospede da Elvis Guesthouse, recomendacao da amiga da Re Mendes. Bodega tambem, mas limpo e ajeitado :) Pertence a uma familia de muculmanos. Anote essa importante dica de viagem pela Asia: os muculmanos sao BEM mais limpos que os indianos. Custa 250 rupias por dia, a bagatela de nove reais.

Depois de uma semana linda (absolutamente linda) na companhia do namorado (partiu ontem, ohhhhh), perco a serenidade de caminhar tranquila, principalmente a noite. Sinto tanta sua falta!


Pequenos presentes desta quarta-feira: vi um encantador de serpentes, com uma Naja bem real tentando pica-lo (eu amo cobras); acompanhei a gravacao de uma cena de acao de Bollywood movie, com direito a correria, tiros e efeitos especiais; almocei com Yves, amigo de minha primeira vinda a Varanasi, um jornalista frances que desenvolve um trabalho super importante de instalar pocos de aguas nas comunidades.

Com seus 2000 anos de existencia, Varanasi estimula todos os meus sentidos. A decadencia milenar que todos deveriam contemplar pelo menos uma vez na vida.

O rio Ganges esta morto de tanta poluicao. Mas a devocao deste povo o torna transparente e revitalizador apos um bom mergulho.

5 comments:

Cilene said...

Pernocas,

Que relato mais tocante. Sinto muito pela experiência sofrida com o odor de corpos humanos sendo queimados. Fiquei feliz que conseguiu logo uma segunda pocilguinha, menos agressiva para os seus sentidos.
Naja? sério, acredita que me deu taquicardia quando li? acho que pela surpresa....rs
Nahhh, de fato, quero muito viajar com vc, mas nada nessa linha, ok? Pousadinha, pubs (ou o similar), cama limpinha, comida idem... rs sao minhas prerrogativas
Saudades
Amo vc

Re Mendes said...

que bom q deu certo a guest house.... mas varanasi nao tem jeito, pega legal a gente!!!
aproveite o cantinho de Buda, la sim tem silencio!
bju

Carline :) said...

O "Elvis" anda salvando minha estadia por aqui, querida Re.

Cilene: sigamos para Cuba entao. Sem cobras, sem cobras :) Te amo

Anonymous said...

Oh, my!
Realmente, tudo sempre pode ser... mais difícil!
Saudades de você ;)
Bjs,
Mari.

Michele Oliveira said...

Carline, olá!
Acompanho sua viagem. Que delícia de escrita. Fico encantada com suas descobertas. Viva! Seus olhos nunca mais serão os mesmos - a alma, então, nem se fala.
Com afeto e admiração!
Mi (da UFSC)